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Qualidade com propósito: retrato da educação católica na última década

  • Foto do escritor: Bruno Barreto
    Bruno Barreto
  • 21 de jul.
  • 6 min de leitura

Numa era em que o conglomerado virou o modelo de referência do setor, uma rede inteira de instituições sustentou outra aposta: relevância, propósito e identidade. A análise da última década mostra o que essa escolha produziu. 

 

No início deste mês, apresentamos aos reitores e diretores da ANEC - Associação Nacional de Educação Católica do Brasil, os dados inéditos do estudo que o Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo (IPGC) desenvolveu em parceria com a Associação: uma análise dos indicadores de qualidade e desempenho das instituições de ensino superior católicas brasileiras nos últimos dez anos. Na semana passada, a ANEC fez a divulgação oficial dos resultados. O mérito é das instituições. Nosso papel foi organizar a evidência que já estava na base oficial do INEP.

 

O que dez anos de dados mostram extrapola a rede católica. Serve de motivação para toda a educação privada brasileira — a prova de que a qualidade acadêmica nasce da forma como cada instituição decide se conduzir. E isso importa para o setor que representa a maior parte do ensino superior do país, e que carrega a responsabilidade de expandir acesso sem abrir mão de excelência.

 

Uma escolha que atravessa gerações

 

O estudo percorreu de 2017 aos resultados divulgados em 2026. No centro dele, uma comparação dos dois últimos triênios completos do ENADE — 2017-2019 e 2021-2023 —, indicador a indicador, área a área, no presencial e na educação a distância. A arquitetura segue o desenho do próprio exame: cada ano avalia um grupo de áreas, e três anos fecham um retrato completo. Só o triênio fechado permite comparação real. A partir de 2024, o ENADE ganhou desenho próprio para duas áreas centrais, licenciaturas e medicina, cujos resultados saíram em 2026 e entraram na análise ao lado dos triênios.

 

E a trajetória revela muito. No ENADE presencial, a proporção de cursos católicos nas faixas de excelência 4 e 5 passou de 32,5% no triênio 2017-2019 para 41,6% em 2021-2023. Nove pontos percentuais — o maior avanço de todo o mercado no período. No Conceito Preliminar de Curso, o CPC, que reúne desempenho dos estudantes, corpo docente, infraestrutura e projeto pedagógico numa nota só, a rede saiu de 49,6% para 58,3% dos cursos em faixa 4-5.

 

Não é um movimento recente. A liderança católica na educação a distância pelo CPC já aparecia nos dois triênios anteriores — 47,1% dos cursos em faixa 4-5 no primeiro período, 52,2% no segundo, mais de quinze pontos à frente de qualquer outro grupo. O que essas instituições construíram não começou nesta década. Começou muitas décadas antes, na decisão de colocar a formação do ser humano em sua integralidade no centro do projeto acadêmico.

 

Excelência que se sustenta em toda a rede

 

Entre todos os indicadores que uma gestão acompanha, um dos mais importantes é o IDD (Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado). Ele parte de como o aluno chegou e mede como ele evoluiu ao longo do curso — quanto de conhecimento, de preparo e de capacidade aquela formação de fato agregou. É a distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada.

 

É o indicador que mais se aproxima daquilo que uma instituição de ensino existe para fazer: transformar uma pessoa ao longo dos anos de curso. E, por extensão, contribuir para a sociedade e para o desenvolvimento do país — porque cada profissional mais bem formado é um retorno que a educação devolve ao Brasil.

 

No último ciclo, os cursos católicos ficaram acima da média do mercado em todas as nove grandes áreas do conhecimento avaliadas — de Linguística, Letras e Artes às Engenharias. Sem uma única exceção. Não é uma área forte puxando a média. É a mesma entrega na Saúde e nas Humanas, nas Exatas e nas Sociais Aplicadas — áreas com corpos docentes distintos, culturas acadêmicas distintas. Um único denominador comum: a instituição que está atrás delas. 

 

E a força não está apenas nos cursos de maior destaque, mas na consistência da rede inteira — da faculdade católica focada em um ou dois cursos às grandes universidades com mais de 100 cursos avaliados nos últimos ciclos do ENADE. Não é um caso isolado: é o padrão que se repete na maioria absoluta das associadas da ANEC. Um resultado de destaque em um curso ou num ciclo é uma conquista. Sustentar qualidade em toda a rede, curso após curso durante décadas, é outra coisa — e diz mais sobre a forma como cada IES é governada do que qualquer nota isolada.

 

Dois exames inéditos, um só resultado

 

2025 trouxe o teste mais exigente. Dois exames novos, com desenho próprio, aplicados pela primeira vez: um para as licenciaturas, outro para a medicina.

 

Nas licenciaturas, as instituições católicas registraram 78,5% de cursos satisfatórios — contra uma média nacional de 62,0%. Mas o número que melhor descreve a rede é outro: 60,6% dos cursos estão nas faixas de excelência 4 e 5. Num exame que estreou medindo quantos concluintes atingiram o padrão mínimo de proficiência, e para o qual ninguém pôde treinar, seis em cada dez cursos da rede chegaram ao topo.

 

Na medicina, um exame de natureza inteiramente distinta, as comunitárias e confessionais registraram 94,4% de cursos satisfatórios no ENAMED — praticamente o patamar das universidades públicas, em 95,1%. No recorte que isola as associadas da ANEC, todos os cursos avaliados registraram conceitos satisfatórios, sem nenhuma nota insatisfatória.

 

Formação de professores e formação de médicos exigem projetos diferentes de uma instituição. Duas provas inéditas, aplicadas com poucos meses de intervalo, cada uma com metodologia própria. E o mesmo resultado dos dois lados. Uma instituição pode acertar um exame. Uma rede que acerta dois exames inéditos, em campos que não se tocam, no mesmo ano, não acertou — ela chegou preparada. E chegar preparado a uma prova que nunca se viu é a definição de ter um projeto acadêmico eficaz.

 

A qualidade que vai além dos indicadores oficiais

 

O estudo do Grupo Crátilo com a ANEC não parou na base oficial do MEC. Foi observar se outras réguas de qualidade — nacionais e internacionais, com metodologias próprias — encontravam o mesmo padrão nas IES católicas. Encontraram.

 

No Ranking Universitário Folha de S.Paulo, que combina ensino, pesquisa, mercado, inovação e internacionalização, sete das dez universidades privadas mais bem colocadas do país são católicas. No QS Latin America 2026, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro aparece como a universidade privada brasileira mais bem posicionada de toda a América Latina. No Guia da Faculdade, do ESTADÃO, construído por avaliação de pares com mais de 10.500 professores e coordenadores, as católicas somam 67,8% dos cursos em nota 4 ou 5.

 

E no Impact Rankings, do britânico Times Higher Education, que mede a contribuição das universidades para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da United Nations (ONU), três universidades católicas se destacam acima da média global na maioria dos objetivos. A PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul supera a média global em Saúde e Bem-Estar e em Parcerias para o Desenvolvimento; a PUC Minas, em Paz, Justiça e Instituições Eficazes e em Parcerias; e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Trabalho Decente e Crescimento Econômico e em Educação de Qualidade.  

 

O relatório percorre dez anos e dois ciclos trienais completos do ENADE. Não é um ano bom. É o padrão de uma década — e de muitas anteriores. Padrão comprovado não é acaso: é escolha institucional sustentada. É projeto pedagógico que decide de verdade, indicadores acompanhados antes que a régua externa chegue, propósito que orienta currículo, corpo docente e relação com o território. Atributos de governança e de identidade. O que os dez anos de indicadores mostram é uma rede que fez da qualidade acadêmica uma escolha sustentada, e uma associação que enobrece a educação superior brasileira.

 

O relatório "Indicadores de qualidade da Educação Superior Católica no Brasil" reúne toda essa evidência — o desempenho das instituições católicas nas principais avaliações nacionais e internacionais, ao longo de dez anos. Mais do que apresentar dados, o estudo evidencia o compromisso dessas instituições com a excelência acadêmica, a formação integral e a contribuição para uma sociedade mais justa. Vale a leitura!


Foi um prazer construir este primeiro estudo junto à ANEC. Meu agradecimento à Ir. Iraní Rupolo pela liderança à frente da Associação, e a Guinartt Diniz, Roberta Guedes, Meily Cassemiro Santos, Fabiana Deflon, Idelma Alves Alvarenga e todo o time da ANEC, que conduzem o projeto com clareza e sensibilidade. Uma parceria que nos honra e nos enriquece a cada etapa.



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