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Ranking CWUR 2026: o que os dados revelam sobre as universidades privadas do Brasil e da América Latina

  • Foto do escritor: Bruno Barreto
    Bruno Barreto
  • 30 de jun.
  • 6 min de leitura

No primeiro dia de junho, um dos grandes rankings universitários mundiais divulgou sua edição 2026. A leitura que dominou parte do noticiário do setor nas semanas seguintes foi uma só: as universidades brasileiras caíram. O número virou manchete — "quase nove em cada dez instituições do país perderam posições" — e a causa foi tratada como evidente. Esse cenário joga luz sobre a importância do monitoramento acadêmico global, no qual o CWUR (Center for World University Rankings) desponta como um dos mais respeitados do mundo. Ao lado do QS World University Rankings e do Times Higher Education, forma a tríade de referência mais observada globalmente para avaliar instituições de ensino superior.


Agora, no último dia do mês, com a poeira da manchete assentada, vale fazer o que a pressa do noticiário não permitiu. Abrir a planilha inteira. Porque um ranking nunca é um veredicto sobre quem é bom. É uma escolha sobre o que se decidiu medir — e quem lê essa escolha encontra um relatório diferente do que foi noticiado. Encontra, inclusive, algo que une as melhores instituições privadas do continente e que nenhuma régua internacional foi construída para enxergar.


A régua emprestada


Todo ranking começa com uma decisão invisível: quanto vale cada coisa. Esse, em particular, distribui sua nota assim — pesquisa científica, 40%; empregabilidade dos egressos, 25%; qualidade do ensino, 25%; corpo docente premiado, 10%.


Olhe para o eixo de maior peso. Os 40% que mais definem a posição medem volume total de pesquisa — e volume depende de tamanho. Uma instituição com centenas de pesquisadores acumula mais artigos do que uma menor, ainda que a menor produza, por pesquisador, com a mesma excelência.


Isso não é um defeito. É uma escolha legítima de quem construiu o instrumento. Mas é uma escolha que decide, antes da largada, quem pode chegar ao pódio. E quando uma instituição de identidade regional olha para esse resultado e não se vê, ela tira a conclusão errada: a de que falhou. Ela não falhou. Ela está sendo medida por uma régua emprestada — feita por outro, para outro, com valores que não são os dela. 


A coluna que a manchete não leu


Há, no mesmo relatório, uma coluna que quase ninguém percebeu. A de empregabilidade — o destino profissional de quem se forma. Pesa 25%, tanto quanto a qualidade do ensino. É, para a família que escolhe uma faculdade, talvez o número que mais importa.


Nessa coluna, a Fundação Getulio Vargas aparece em 35º lugar no mundo. À frente de toda universidade pública brasileira nesse quesito — a melhor delas figura na casa dos 390. A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro também aparece bem colocada neste quesito.


Não é acaso que as instituições brasileiras de identidade mais forte liderem justamente o indicador que mede resultado para o aluno. É o que chamo de "excelência de identidade": a competência que nasce de uma missão declarada, de um projeto formativo com rosto, de uma instituição que sabe exatamente para quem existe e o que promete entregar. O ranking quase não pesa isso. Mas, onde pesa, são elas que aparecem.


O que elas têm em comum


Amplie o mapa e o padrão se confirma. A melhor universidade privada de toda a América Latina, segundo esse mesmo levantamento, é a Pontificia Universidad Católica de Chile. Na sequência, num mesmo movimento, vêm a Pontificia Universidad Javeriana, na Colômbia, a Pontificia Universidad Católica del Perú e as três PUCs: PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.


Pare um instante nesse dado. As instituições privadas mais bem colocadas de um continente inteiro têm, todas, o mesmo ponto em comum. É a missão. Séculos de identidade, raiz comunitária, propósito declarado. Foi isso que as levou ao topo. E é exatamente isso que nenhum ranking foi desenhado para medir: não existe coluna para vínculo, não existe indicador para propósito, não existe nota para o laço de uma instituição com a comunidade que ela atende. O que essas universidades compartilham é, precisamente, aquilo que a régua não enxerga — e que, mesmo assim, as colocou na frente. 


No Brasil, esse modelo tem densidade que se mede. As instituições reunidas pela ANEC - Associação Nacional de Educação Católica do Brasil somam cerca de 120 instituições de ensino superior espalhadas por todo o território nacional, mais 1.5 milhão de alunos entre a educação básica e superior. Um sistema inteiro construído sobre a mesma identidade que levou as PUCs ao topo do continente. Não é nicho. É uma das colunas que sustentam a educação superior brasileira.


E isso conversa diretamente com um dado que produzimos no Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo (IPGC). No último Enade, nas licenciaturas, os cursos das instituições comunitárias e confessionais brasileiras atingiram 74,5% de conceitos satisfatórios e 73,1% de proficiência entre os concluintes, acima dos 69,1% registrados pela rede pública. Dois instrumentos distintos, um internacional e outro nacional, apontando na mesma direção: onde se mede formação e propósito, a identidade forte se destaca.


O exercício que vira o pódio de cabeça para baixo


Quero propor um experimento simples. Pegue o mesmo ranking e troque um único critério: em vez de contar instituições de elite por país, como a imprensa fez, conte por milhão de habitantes. É a pergunta que mede densidade, não volume: não 'quantas instituições de ponta um país tem', mas 'quanta excelência ele oferece para cada cidadão'. O pódio inteiro se reorganiza.


Quando o ranking saiu, um dado correu o mundo: a China (360) ultrapassou os Estados Unidos (313) como o país com mais instituições na lista. É uma manchete sobre volume — quem acumula mais. Mas volume não mede equidade. Um país pode liderar em número absoluto de instituições de elite e, ao mesmo tempo, oferecer pouquíssima excelência para cada cidadão, porque tem uma população enorme para atender. A pergunta que importa não é "quantas instituições de ponta um país tem", e sim "quanta excelência ele entrega aos seus habitantes".


Fizemos essa conta no IPGC, a partir dos números do ranking cruzados com dados populacionais. E o pódio vira de cabeça para baixo. No topo da densidade por habitante aparecem Islândia, Noruega, Estônia, Finlândia e Áustria — nenhuma das potências que dominam o volume bruto. Os Estados Unidos e China despencam na fila.


E o Brasil? Em número absoluto de instituições, o país é o décimo do mundo — 52 no total, à frente de potências como Canadá (38) e Austrália (39). É uma posição de respeito, e foi por ela que parte do noticiário lamentou as quedas. Mas vire a régua para excelência por habitante e o quadro muda por completo. O Brasil cai dezenas de posições. E mesmo dentro da América Latina deixa de liderar: Chile e Uruguai passam à frente, porque entregam mais instituições de ponta na proporção da sua população.


Nada nos dados mudou. Mudou o peso. E mudou tudo. É a prova viva de que cada métrica desenha um vencedor diferente — e de que perseguir o pódio dos outros é correr atrás de uma régua que talvez não meça o que importa para você.


O tamanho do que ainda não construímos


Essa baixa densidade não é demérito. É tarefa. O Brasil tem apenas 24% da população de 25 a 34 anos com ensino superior, contra uma média de 47,6% nos países da OCDE — praticamente a metade. Há um país inteiro de jovens fora da universidade esperando por acesso.


E quem entrega esse acesso? O setor privado matricula mais de 8,1 milhões dos mais de 10 milhões de universitários brasileiros. É a locomotiva real da educação superior do país — e é, em boa parte, invisível num ranking construído para medir produção científica, não formação aplicada, não empregabilidade regional, não o vínculo de uma instituição com a sua comunidade. 


Existe mais de uma forma de ser excelente. As instituições que lideram esse ranking são excelentes naquilo que ele mede. Mas a excelência de identidade — a que forma, a que emprega, a que enraíza — não cabe na régua emprestada. E é ela que move o ensino superior brasileiro.

Como disse Ronald Coase, Nobel de Economia, "Se você torturar os dados por bastante tempo, eles confessarão qualquer coisa". Exemplo recente de escolha de métrica que molda a conclusão.Foi o que observei na última divulgação do ENADE das licenciaturas: ao medir os resultados no atacado, por modalidade, o Ministério da Educação escolheu a métrica que sustentava uma narrativa — e essa narrativa virou base regulatória. Quem desagrega os mesmos dados encontra outra história, e foi o que analisei no artigo "Extinto por decreto, aprovado pelo ENADE".



Antes de perguntar onde a sua instituição está num ranking, vale perguntar o que aquele ranking escolheu medir — e se isso coincide com a missão que a sua instituição escolheu cumprir. Se não coincide, talvez você não esteja perdendo o jogo. Talvez esteja jogando outro, com regras feitas para quem você de fato é.



 
 
 

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