UNESCO: a educação superior do mundo dobrou de tamanho, mas não de igualdade
- Bruno Barreto

- há 6 dias
- 7 min de leitura
Pela primeira vez, a UNESCO produziu um relatório global dedicado exclusivamente às tendências da educação superior: o Relatório Mundial sobre as Tendências da Educação Superior (no original, Higher Education Global Trends Report). A distinção importa. A organização monitora educação há mais de duas décadas pelo GEM Report, seu documento de bandeira sobre o estado do ensino no mundo — mas o GEM cobre todos os níveis, do infantil ao superior. O que é inédito aqui é um inventário planetário voltado só para o ensino superior.
E não é um levantamento qualquer. O relatório se apoia no Observatório de Políticas de Educação Superior, que reúne dados de cerca de 150 países e mais de 50 indicadores de política, somado às estatísticas do Instituto de Estatística da própria UNESCO e às informações prestadas pelos governos membros. É, em outras palavras, o retrato mais amplo já organizado sobre o setor — o tipo de inventário que merece leitura atenta de quem dirige uma instituição.
O número de abertura dá o tom. São 269 milhões de matriculados no mundo, mais que o dobro dos cerca de 100 milhões registrados na virada do século. A leitura que proponho aqui não é a do balanço, e sim a do mapa: o que esse retrato mostra para quem está à frente de uma instituição.
As duas velocidades da expansão
Antes de tudo, vale explicar a régua que o relatório usa. A taxa bruta de matrícula mede quantas pessoas estão no ensino superior em relação à população na idade típica de cursá-lo, na maioria dos países: faixa dos 18 aos 22 anos. Uma taxa de 80% significa que, para cada cem jovens na faixa etária de referência, existe o equivalente a oitenta matrículas — contando também quem entrou mais tarde, o que explica por que alguns países passam dos 100%. Uma taxa de 40% indica que pouco mais de um terço dessa geração chegou à universidade. É o indicador que permite comparar o acesso entre países de tamanhos completamente diferentes.
E é por essa régua que aparece a notícia mais animadora do inventário: o acesso cresceu em quase todo lugar. A matrícula global mais que dobrou em duas décadas, e esse avanço significa milhões de pessoas que entraram na universidade onde antes a porta sequer existia. É uma das maiores expansões de oportunidade da história recente, e o relatório a registra como tal.
O que muda é o ritmo. Nas regiões mais desenvolvidas — Europa Ocidental, América do Norte (exceto México) e o Leste Europeu, todas com taxas em torno de 80% —, o crescimento desacelerou. Mas desacelerou pela melhor das razões: quando um sistema já matricula a maior parte da sua população jovem, sobra pouca margem para subir. A estagnação, ali, é o efeito colateral de uma conquista. Eles chegaram perto do teto.
Onde ainda havia espaço, o motor seguiu ligado. A América Latina e o Caribe saltaram de 40% para 53% em uma década — um ritmo que a Europa já não tem como repetir, simplesmente porque não tem mais para onde crescer. A Ásia e a África protagonizaram os maiores avanços recentes, e não apenas na graduação: na África Subsaariana, partindo de uma base baixa, o número de matriculados em doutorado mais que dobrou no período. Em alguns países asiáticos, a pós-graduação cresceu em proporções ainda maiores.
A leitura, então, não é a de um mundo que parou. É a de um mundo em que a fronteira do crescimento se moveu — dos países que já realizaram a massificação para aqueles que ainda a estão construindo. E o Brasil está, com folga, do lado de quem ainda tem espaço para avançar.
A média que esconde o território
Há um alerta que o próprio relatório faz questão de cravar: a taxa bruta mundial de 43% — o número mais repetido em toda a cobertura do documento — disfarça disparidades enormes. A mesma média que descreve o planeta abriga mundos que não se parecem em nada.
Os números das duas pontas deixam isso evidente. Na ponta alta, países como a Grécia e a Coreia do Sul superam os 100% de taxa bruta — têm, em proporção, mais matrículas do que jovens na idade de cursar. Na ponta baixa, a realidade é outra: o Malawi registra menos de 1%, a Tanzânia fica em torno de 5%, e vizinhos como Níger e Chade partilham faixas igualmente baixas. Entre um extremo e outro não há um degrau. Há um abismo. E a média de 43% mora, confortável, no vão entre os dois.
É isso que chamo aqui de "a média que esconde o território". O indicador agregado serve para comparar nações num gráfico, mas não orienta nenhuma decisão de quem precisa atuar num lugar concreto. Pior: ele tranquiliza quem deveria estar atento, porque suaviza no papel uma desigualdade que, no terreno, é brutal.
E a desigualdade que o relatório descreve não é só de acesso. É de financiamento — poucos países dirigem bolsas e auxílios aos grupos que mais precisam. É de conclusão — entrar na universidade não é o mesmo que se formar nela. E é de prioridade política, já que o compromisso com a equidade varia muito de uma região para outra, e mesmo entre países vizinhos com médias parecidas. Duas nações com a mesma taxa podem viver situações opostas, dependendo de quem entra, de quem permanece e de quem chega ao diploma.
O ponto (e ele vale para qualquer país de grande extensão) é simples: quanto mais amplo o território, mais a média esconde. Ela descreve um país que talvez não exista em lugar nenhum — e deixa de fora justamente as regiões onde a decisão de gestão precisa ser tomada.
O custo que muda de endereço
Há uma segunda mudança de endereço no relatório, e essa toca diretamente o bolso das famílias. A demanda pelo ensino superior explodiu nas últimas duas décadas, mas o gasto público acompanhou de longe: na média global, ele se manteve estável, perto de 0,8% do PIB. Quando a procura cresce e o financiamento estatal não cresce na mesma proporção, alguém precisa cobrir a diferença. Esse alguém, cada vez mais, é a própria família. É o que o relatório chama de divisão de custos — a transferência gradual de parte da conta do Estado para o estudante.
Os números mostram que isso não é uma anomalia de país pobre, e sim uma tendência estrutural do mundo todo. Em nações desenvolvidas como o Japão e a Coreia do Sul, dados da OCDE citados no documento apontam que os domicílios já respondem por mais de 40% do financiamento do sistema. A falta de políticas públicas, em graus diferentes, atravessa economias ricas e em desenvolvimento.
O relatório, porém, é explícito num alerta que costuma passar batido: quando o custo migra para a família sem mecanismos robustos de auxílio, ele deixa de ser conta e vira barreira. Um sistema que depende demais do bolso das famílias, sem subsídio, acaba excluindo exatamente quem tem menos — e transforma o acesso, que deveria ser uma porta, num filtro de renda.
E aqui está a parte propositiva do diagnóstico. O documento observa que apenas uma minoria de países desenhou fórmulas de financiamento que levam a equidade em conta — bolsas dirigidas a quem precisa, crédito estudantil atado à capacidade de pagamento, apoios baseados na necessidade real do aluno. Onde esses instrumentos existem, o custo elevado deixa de ser sentença. Onde não existem, ele se torna muro. A diferença entre uma coisa e outra não está no preço da mensalidade. Está na arquitetura de auxílio construída ao redor dela.
Para quem dirige uma instituição, isso reposiciona a pergunta. Ela não é mais quem paga pela educação superior — a resposta, em boa parte do mundo, já é a família. A pergunta é se o sistema oferece os instrumentos para que pagar não signifique ficar de fora. Em países onde a educação consome uma fatia pesada do orçamento doméstico, as políticas de acesso não são um detalhe técnico nem caridade. São a infraestrutura que mantém a porta aberta para quem, sem elas, não entraria — e o relatório dá a esse argumento o respaldo de uma agência da ONU.
Um continente dentro do mapa
Agora, o Brasil. Tudo o que o relatório diz sobre o mundo se repete, em escala, dentro das nossas fronteiras. Somos um continente, e a média nacional de acesso esconde o mesmo abismo que a média global esconde: o interior não é a capital, o Norte não é o Sudeste, e a régua única engana em todos os casos. O dado nacional, sozinho, descreve um Brasil que não existe em lugar nenhum.
A boa notícia para quem dirige uma instituição aqui está na primeira das mudanças de endereço. A região onde o Brasil se encaixa segue crescendo, a fronteira que se fechou na Europa, por aqui continua aberta. E é, por estrutura, um mercado de graduação: a América Latina concentra 93% das matrículas nos cursos de licenciatura e bacharelado, e apenas 0,9% no doutorado. O espaço para avançar não está apenas na pós-graduação das capitais. Está na graduação, no território, perto de quem ainda não foi alcançado.
A segunda mudança de endereço também nos descreve. Num país onde a educação pesa fundo no orçamento das famílias, são as políticas de acesso — bolsas, programas como o ProUni, o financiamento estudantil — que convertem o custo em ingresso. O relatório, ao mostrar que a divisão de custos só funciona com auxílio, oferece da ONU o respaldo para uma verdade que o setor privado brasileiro conhece de longa data: esses mecanismos não são favor, são a engenharia que sustenta o acesso. E a instituição que sabe operar dentro deles atende justamente quem, sem eles, ficaria de fora.
E é nesse cruzamento que mora a oportunidade das instituições com raiz na própria região — as familiares, as comunitárias, as confessionais. O crescimento que ainda existe no Brasil não está na média nacional, está no território. E ninguém lê um território melhor do que quem nasceu nele. A proximidade com a comunidade local, que às vezes é tratada como característica de porte pequeno, é na verdade o ativo mais alinhado com aquilo que o relatório mostra ser a fronteira do crescimento. Identidade local não é limitação. É vantagem competitiva diante de um mapa que recompensa quem conhece o chão.
A lição do primeiro grande inventário da UNESCO, para quem está à frente de uma instituição, cabe em uma frase: a média é a unidade errada de análise. O território é a unidade certa. Quem dirige pela média do país administra um lugar que não existe; quem dirige pela leitura da própria região administra o lugar real, com suas lacunas reais — e é nas lacunas que mora o crescimento.
O relatório está público e vale a leitura inteira — não pelos números que confirmam o que já sabíamos, mas pela forma como organiza um setor que ficou grande demais para ser lido pela média. Quando olhar para ele, comece pela pergunta que importa: onde, no seu mapa, ainda há espaço para crescer.





Comentários