Captação 2026: a sala esvaziou, mas a receita subiu

No primeiro semestre de 2026, a receita subiu nas seis companhias de educação superior listadas na B3. A base de alunos caiu em cinco delas. A Vitru Educação é a única que cresce dos dois lados.
As duas frases não se contradizem. Elas descrevem uma conta que passou a fechar por outro lado — e é essa mudança que a 12ª edição do Tracking Educacional Crátilo Educacional registra.
Menos gente entrando, mais gente ficando
A Cruzeiro do Sul Educacional é o caso mais nítido. A captação dela caiu quase um quarto no ciclo, e nove em cada dez alunos aptos renovaram a matrícula no presencial — o melhor primeiro semestre da série da companhia. No trimestre, o ticket subiu 9,4% e o lucro líquido cresceu 60,6%.
Três coisas verdadeiras ao mesmo tempo, e nenhuma delas aparece num painel que só conta matrícula nova.
É aqui que está o incômodo desta edição para quem dirige instituição. Meta de captação batida virou sinônimo de base maior, e faz sentido que tenha virado: sem aluno entrando não há operação. Mas a meta mede quantos entraram, e só isso. Não mede quanto cada um paga, quanto custou trazê-lo, nem quanto tempo ele fica. As seis passaram a operar essas quatro pontas ao mesmo tempo, e o resultado, é uma sala mais vazia com um resultado melhor.
Gastar mais não encheu a sala
As seis gastaram R$ 1,07 bilhão em marketing no semestre. É o dinheiro que disputa o mesmo aluno que a sua instituição disputa. E a base caiu em cinco delas.
A dispersão diz mais do que o total. A Vitru destinou 15,8% da receita a marketing; o Grupo Ser Educacional , 5,8% — e a Ser é a menos endividada das seis, com dívida líquida de 0,75 vez o que gera em um ano, e teve o segundo maior crescimento de lucro entre as quatro que publicam variação, 33,3%. Uma ressalva obrigatória antes de qualquer comparação: as seis não chamam a mesma coisa de "marketing". A Ser publica só publicidade; a Cruzeiro e a Ânima Educação, a linha dentro de um agregado maior; a Vitru, toda a despesa comercial ajustada, sem depreciação. Os percentuais indicam direção e ordem de grandeza, nunca equivalência.
O que a comparação sustenta é a relação. Quanto mais a base de uma companhia pesa em ensino a distância e semipresencial, maior a fatia da receita que volta para marketing. Na Vitru, 97,6% da base e 15,8% da receita. Na Ser, 35,4% e 5,8%. Em cinco das seis, um sobe com o outro.
A exceção está declarada e é a mais interessante: a Ânima tem 35,9% da base em modalidades a distância e ainda assim destina 7,9% da receita a marketing — mais que a Cruzeiro do Sul, que tem quase o dobro dessa exposição e gasta 6,8%. Não é regra do setor, é escolha de operação. E é a prova de que a modalidade não determina sozinha o quanto se gasta.
O ticket do presencial virou de direção
Por anos os grandes puxaram o preço do presencial para baixo, e a instituição regional que competia com eles na mesma praça segurou o próprio preço para não perder aluno.
Neste semestre o movimento virou. Em cinco das seis, o ticket do presencial subiu: Ânima Core 9,4%, Cruzeiro 6,6%, Yduqs 5,0%, Ser 4,8%, Kroton 3,8%. A Vitru não abre ticket por modalidade. As definições de ticket variam entre elas; o período é o mesmo.
O ticket do presencial subiu em cinco companhias no mesmo semestre, e a receita subiu em todas. Ticket médio sobe por preço, por composição de curso ou por queda de bolsa, e o relatório não separa as três — na Ser Educacional, a própria companhia atribui a alta à migração da base para a modalidade de mensalidade maior. Ainda assim, o sinal é o mesmo em cinco casas ao mesmo tempo. Quem segurou preço para competir com quem agora está subindo tem espaço para rever — e tem uma referência de mercado para sustentar a conversa interna.
A régua que falta
O gasto por aluno captado fecha em três das seis companhias, numa faixa estreita: R$ 576 na Cruzeiro do Sul, R$ 657 na Ser Educacional, R$ 666 na Cogna Educação/Kroton. Nas outras três não é calculável, porque o marketing cobre modalidades que a captação divulgada não cobre, ou porque a companhia não publica captação consolidada.
Os gestores regionais declaram, no Panorama da Captação Brasileira 2026/1, do Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo, teto de até R$ 750 por aluno no presencial — 71% dos respondentes — e de até R$ 350 no ensino a distância, 75%. Teto declarado e gasto apurado não são a mesma medida, e por isso não se comparam diretamente. Mas as duas ordens de grandeza são próximas — o que é indício, não medida —, e é isso que torna a pergunta seguinte a que importa.
A diferença não está no gasto para trazer o aluno. Está no que se sabe depois. Ninguém diz ao gestor regional quanto vale o aluno que ele acabou de trazer, quanto ele paga por mês, quanto tempo fica ou quanto da receita da modalidade dele volta para a campanha seguinte. Os listados sabem, e é por isso que conseguem perder base e ganhar resultado no mesmo trimestre.
Uma companhia mostrou como essa conta se parece por dentro. A Ânima é a única das seis que publica a despesa de marketing separada por modalidade, e publica com a mesma contabilidade nas três linhas, o que permite compará-las entre si sem ajuste: de cada cem reais faturados pelo Ensino Digital, 20,9 voltam para a campanha; no presencial, 9,7; na medicina, apenas 2,9. O número não diz quanto custou trazer um aluno — diz quanto daquela receita a modalidade precisa devolver ao marketing para continuar sendo procurada, que é uma pergunta diferente e mais dura. E vale só para a Ânima: é a casa medindo a si mesma, não um preço de modalidade do setor. O que serve para qualquer instituição é o método, porque os dois números dessa conta já existem em toda mantenedora.
Quatro lições do trimestre para quem não está na bolsa
O ticket do presencial subiu em cinco das seis, no mesmo semestre. Quem segurou preço para competir tem espaço para rever, com referência de mercado na mão.
Gastar mais não encheu a sala. A pergunta deixou de ser quanto investir em captação e passou a ser quem essa campanha traz. Retenção não começa na coordenação, começa no comercial: o aluno que entra com poder de pagamento compatível com a mensalidade renova mais, atrasa menos e sustenta o ticket. Volume alto de matrícula com perfil errado aparece três meses depois, na inadimplência e na evasão — e aí o gasto já foi feito.
O regional opera numa ordem de grandeza próxima à dos grandes para captar, e mede menos o que faz. O gasto por aluno captado é a primeira metade da conta; a segunda é o que aquele aluno rende e por quanto tempo.
A conta que reordena a próxima campanha cabe numa planilha e a sua instituição já tem os dois números, em sistemas diferentes e com donos diferentes: receita líquida por modalidade, despesa de campanha por modalidade, o rateio do que é compartilhado com o critério escrito, e receita e despesa do mesmo período nas duas pontas. Feita uma vez, ela responde com o número da sua praça o que aqui foi respondido com o número dos outros. Um aviso que muda tudo se for ignorado: o resultado dessa conta não é o gasto por aluno captado. São coisas diferentes, e confundi-las inverte a decisão.
A edição completa
A 12ª edição do Tracking Educacional Crátilo, do Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo, cobre sete companhias listadas em duas bolsas (B3 e Nasdaq) e está disponível para download:





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