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Eleições 2026: o Brasil delegou a universidade à iniciativa privada. Faltou avisar a política pública.

Foto do escritor: Bruno Barreto
Bruno Barreto
29 de set.
7 min de leitura

No próximo domingo, o país escolhe quem vai ocupar a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Para quem dirige uma instituição de ensino superior, essa escolha não é abstrata: é o governo que vai assinar ou revogar decretos, definir o calendário e o peso das avaliações, decidir o que acontece com o financiamento estudantil e, sobretudo, dizer se a educação superior será tratada como política de Estado ou como agenda de mandato. Poucos setores dependem tanto de regra quanto o nosso — e poucos têm tão pouca voz no momento em que a regra é decidida.


Nas últimas semanas, entidades representativas do ensino superior privado escreveram aos candidatos. O Semesp enviou sua carta em 19 de agosto, a ABMES em 25 de agosto, a ANUP - Associação Nacional das Universidades Particulares em 28 de setembro. Os documentos convergem no essencial. Os três pedem a modernização do FIES e do Prouni, que hoje alcançam uma parcela pequena de quem ingressa — o Semesp aponta 0,8% dos ingressantes pelo FIES em 2023, e a ANUP, 1,9% dos alunos do setor. Os três pedem segurança jurídica e previsibilidade regulatória, com o marco do EaD e o calendário do ENAMED como exemplos do que não deveria mudar com o ciclo em andamento. Os três pedem que EaD e presencial sejam avaliados por resultado de aprendizagem, e não tratados como modelos concorrentes. E os três pedem participação do setor na formulação das políticas, com a ABMES resumindo a tese que as une: a educação superior deve ser política de Estado, independentemente de governos e orientações.


Cada carta traz também a sua ênfase. O Semesp coloca a meta na mesa: 20,8% dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados no ensino superior, e o Plano Nacional de Educação quer 40% até 2036. A ABMES insiste que Enade e ENAMED devem induzir qualidade, e não virar automaticamente instrumento de punição. A ANUP traz o dado que mais raramente aparece nesse debate: o setor privado está presente em 3.255 municípios, 72% dos seus alunos vêm de famílias com renda até 4,5 salários mínimos, e a população em idade universitária começou a encolher em 2025 — uma queda que se estende por três décadas e exige política de longo prazo, não ajuste de curto.


O que escrevo aqui é uma contribuição a esse debate, a partir de onde atuo: a gestão de instituições regionais, familiares, confessionais e comunitárias, que é o foco do Grupo Crátilo e o assunto desta coluna há dois anos. Os cinco pontos que seguem se apoiam em pesquisas do Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo e em levantamentos nacionais e internacionais que já analisei aqui — o Censo da Educação Superior, a UNESCO, a OECD - OCDE, a pesquisa Globo com candidatos ao ensino superior. O ponto de partida é o número que as três cartas compartilham e que dá título a este texto: segundo o último Censo, aproximadamente 80% das matrículas de graduação no Brasil estão em instituições privadas. 


O país construiu o acesso ao ensino superior pela iniciativa privada. A política pública ainda não incorporou o que isso significa.


1. O mundo expandiu o ensino superior sem o Estado pagar a expansão


O primeiro relatório global da UNESCO dedicado ao ensino superior, publicado em maio, conta a história em um número: 269 milhões de matriculados no mundo, mais que o dobro dos cerca de 100 milhões da virada do século. A taxa bruta de matrícula global chegou a 43% — perto de 80% na Europa Ocidental e na América do Norte, e na América Latina saltou de 40% para 53% em uma década. O investimento público mundial, no mesmo período, ficou parado em torno de 0,8% do PIB. A conta dessa expansão mudou de endereço: em países como Japão e Coreia do Sul, as famílias respondem por mais de 40% do financiamento. O mundo dobrou de tamanho transferindo o custo do Estado para a casa do aluno, e quem absorveu a demanda foi a iniciativa privada — um terço das matrículas do planeta, e quase metade das da América Latina.


2. No Brasil, foi a instituição privada que levou o país aos 10 milhões de universitários


O Brasil chegou, no Censo de 2024, a 10 milhões de universitários. Chegou porque a instituição privada foi onde a pública não chegou, no ritmo e na escala que a demanda exigia — e porque a família brasileira assumiu a conta. A pesquisa Globo com candidatos ao ensino superior mostra o rosto disso hoje: 44% dizem que vão pagar sozinhos a mensalidade, contra 34% em 2021; os programas governamentais caíram de 19% para 11% das respostas; o crédito privado subiu de 6% para 10%. É um esforço nacional feito por milhões de famílias e por milhares de instituições, e ele ainda não terminou: 24% dos brasileiros de 25 a 34 anos têm diploma, contra 47,6% da média da OCDE, e 45% dos jovens de 18 a 24 concluíram o ensino médio sem entrar no superior. A distância que já foi fechada, foi fechada pela iniciativa privada. A que falta é maior — e a meta de 40% do PNE não se alcança sem ela.


3. Quem cobre o território é a instituição enraizada


Dentro dos 80%, o mapa é desigual. Segundo o Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo, 77% dos universitários estão concentrados em 3,5% das mantenedoras; na outra ponta, 76% das instituições têm até 2.000 alunos e 41% operam com até 300. São essas que estão no interior — e é a soma delas com os polos do modelo nacional que faz o setor privado estar presente nos 3.255 municípios que a ANUP registra. O modelo nacional tem virtudes que reconheço sem reserva: levou o ensino superior a 2.466 cidades com menos de 10 mil habitantes, deu acesso a quem não teria, ensinou o setor inteiro a operar com eficiência operacional. O que ele tem dificuldade estrutural de entregar é enraizamento. Um projeto desenhado para funcionar igual em cem cidades não consegue, por definição, ser diferente em cada uma. 


O que distingue a instituição regional é quem decide: quem a dirige vive na cidade, a marca pertence à cidade, o resultado é reinvestido nela, o portfólio de cursos nasce da economia local e o vínculo com as famílias e as empresas da região atravessa gerações. Por isso, quando uma instituição dessas entra em dificuldade ou fecha, o problema não é apenas do mantenedor ou do negócio. Quando um grupo nacional encerra um polo — e os listados encerraram 836 em doze meses —, a cidade perde um ponto de oferta. Quando a instituição regional fecha, a cidade perde um dos seus principais empregadores de mão de obra qualificada, a clínica que atendia quem não tem plano, o professor que formava os professores da rede, a instituição que ancorava o comércio do entorno — e o motivo que o jovem tinha para estudar sem sair da cidade. É um impacto econômico, social e cultural que não aparece no Censo como matrícula, e que nenhuma política pública hoje mede. 


4. A política pública brasileira trata o ensino superior como unidade indistinta


Historicamente, a regulação e a avaliação do ensino superior no Brasil foram construídas como se o país inteiro fosse o mesmo lugar e toda instituição fosse a mesma instituição. Em muitos critérios, uma faculdade com 400 alunos e três cursos responde a exigências desenhadas para uma universidade; uma instituição no interior do Amazonas é medida pela mesma régua de uma instituição na capital paulista. Num país de escala continental, com realidades regionais tão distintas quanto as que o Instituto Crátilo mapeou nas cinco regiões — o Norte com três quartos dos ingressantes chegando pelo EaD, o Sul com a maior concentração de instituições comunitárias —, política indistinta produz sempre o mesmo efeito: mede modalidade e tamanho, não projeto.


Os exemplos recentes mostram o efeito dessa régua única, e não são exclusivos de um governo — são o padrão de décadas. No ENAMED, 70% dos cursos de medicina que receberam conceito 1 na prova têm conceito de curso 5 na avaliação presencial do próprio MEC: os instrumentos oficiais chegam a conclusões opostas sobre a mesma instituição. Nas licenciaturas a distância, a decisão de encerrar a modalidade EaD alcançou igualmente quem tinha 70,1% de concluintes em cursos satisfatórios e quem tinha 7,4%, porque a régua olhou a modalidade, não o projeto. E regra feita por decreto — como foram, ao longo dos anos, tantas do nosso setor — carrega a incerteza de ser revista a cada ciclo político. Como as instituições podem planejar diante dessa incerteza? Uma companhia com caixa de bolsa absorve mudança no meio do ciclo. Uma instituição regional, não.


5. A política pública que falta: reconhecer e fomentar a instituição que tem laços locais


Há no Brasil instituições tradicionais, com excelência acadêmica comprovada em ciclo após ciclo de avaliação — familiares, confessionais e comunitárias, com décadas de história na mesma cidade — que encontram dificuldade crescente para se manter competitivas nas suas próprias regiões dentro de um modelo de mercado que passou a premiar escala. Não é falta de qualidade nem de gestão; é que o jogo mudou de regra e a política pública não acompanhou. 


Em 30 anos, o país fez política para o aluno (Prouni, FIES), para a modalidade (marco do EaD) e para a vaga (Mais Médicos). Nunca fez política para a instituição regional, e nunca desenhou um instrumento que reconhecesse o que ela entrega ao território — a formação de quem fica, o serviço à comunidade, o vínculo de gerações com as famílias da região. O que proponho não é subsídio. É que a territorialidade passe a ser valor mensurável na política pública: tempo de existência na comunidade, qualidade comprovada em ciclo completo, contrapartida visível ao território, independentemente de natureza jurídica. 


Regulação proporcional ao porte e à região, em vez de um único modelo nacional aplicado a um país que não é um só. Financiamento do aluno que privilegie a permanência onde ele nasceu. Avaliação que leia projeto, não modalidade. Não é pedir mais Estado. É pedir que ele enxergue o que já sustenta o interior do país.


O próximo governo herda um sistema de acesso ao ensino superior construído em grande parte pela iniciativa privada e pago pelas famílias — e um setor que absorveu a expansão e vai enfrentar, a partir de agora, a contração demográfica com as mesmas regras de sempre. As entidades pediram o que o setor precisa. Acrescento o que o país precisa reconhecer: a universidade brasileira chegou onde chegou pela instituição que tem endereço, e o futuro dela depende de uma política pública que, pela primeira vez em 30 anos, saiba o nome da rua.



 
 
 

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