Medicina: um programa abriu as vagas. Doze anos depois, uma prova pode fechá-las.

No último domingo, 153 mil estudantes estavam inscritos no Enamed 2026 — a mesma prova que, no início deste ano, ao ter os primeiros resultados divulgados, deixou de ser assunto de coordenação acadêmica e virou pauta de conselho. Foi ali que a qualidade da educação médica saiu do campo apenas acadêmico e entrou no campo mercadológico e financeiro. Desde 2014, quando o primeiro edital do Mais Médicos abriu a disputa entre mantenedoras privadas pelo direito de ofertar o curso nas cidades selecionadas, o setor viveu doze anos de expansão em que a vaga de medicina foi o ativo mais estável que uma instituição podia ter: difícil de conseguir, cara de comprar e, uma vez autorizada, "permanente". É essa permanência que pode estar acabando. Cursos com desempenho insuficiente podem perder um quarto ou metade das vagas autorizadas, e uma vaga que se perde é receita que não volta, marca que se explica no vestibular e ativo que vale menos numa negociação.
O resultado da prova de domingo sai em 4 de dezembro — ou seja, no meio do processo seletivo de 2027, o mais importante do ano, e os impactos podem ser bem importantes.
Em 1º de setembro o Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo publicou a 12ª edição do Tracking Educacional Crátilo, o relatório trimestral que acompanha os grupos de educação superior listados em bolsa. Medicina tem seção própria nesta edição, e a razão é o peso que o curso passou a ter dentro dessas companhias: na Afya , responde por 85% da receita de graduação; na Yduqs, medicina e as marcas premium respondem juntas por quase metade do resultado com menos de um terço da receita; na Ânima Educação, por 46% do resultado operacional. Este artigo de hoje encerra uma série de três leituras que escrevi aqui sobre essa edição. A primeira, publicada há quinze dias, tratou dos 836 polos que quatro dos seis grupos fecharam em doze meses, e do que significa desmontar rede de parceria em centenas de cidades no mesmo momento em que o aluno volta ao presencial. A segunda, de sete dias atrás, mostrou como a receita subiu nas seis companhias enquanto a base de alunos caía em cinco, e por que meta de captação batida deixou de ser sinônimo de sala cheia.
A maior operação de medicina do país não está na bolsa brasileira
A Afya passou a ser a sétima companhia do Tracking nesta edição, e a entrada dela mudou o alcance do relatório: até então o documento cobria os seis grupos listados na B3 , e agora acompanha também a Nasdaq, onde a Afya é negociada. Com ela entrou a escala real do setor — são 3.768 vagas e 26 mil alunos de medicina, mais do que YDUQS, Cruzeiro do Sul Educacional e Grupo Ser Educacional somadas, que juntas chegam a 4.190 vagas na mesma data-base. Uma única companhia responde por praticamente noventa por cento do que as três brasileiras têm.
O relatório carrega uma ressalva que muda a leitura dessa comparação. A Afya conta vagas em operação, enquanto as brasileiras contam vagas autorizadas: uma vaga autorizada e ainda não ocupada é patrimônio regulatório, uma vaga em operação é receita corrente. São réguas diferentes, e a diferença subestima a Afya. Na prática, a distância entre a maior operação de medicina do país e as companhias brasileiras é maior do que os números fazem parecer — e quem compara sem saber disso compara errado.
Dentro das companhias, medicina virou outra coisa
O número que melhor resume o que aconteceu com o setor é o da concentração: na Afya, medicina responde por 85% da receita de graduação e por menos de um terço dos alunos. Um curso concentra quase toda a receita, e o resto da operação divide o que sobra. Nas brasileiras o padrão se repete em escala menor, e as margens dessas verticais estão acima de qualquer outra linha das companhias. É por isso que uma vaga vale o que vale, e é por isso que perder vaga não é perder volume — é perder margem.
Há um detalhe na página da Afya que contraria a leitura fácil. A base de alunos dela cresceu 11% em doze meses e não foi medicina que puxou, foi saúde e os demais cursos: medicina avançou 2,7%. É um curso que não escala rápido, porque cada vaga nova depende de autorização do Ministério da Educação, e que quase não perde aluno depois que ele entra — a Yduqs, única das companhias a publicar esse dado em medicina, registra renovação acima de 97%. Toda a variável está na entrada, e é exatamente aí que a sanção morde.
O que já está travado
Duas situações do relatório mostram que isso não é hipótese futura. Das mil vagas da Ser Educacional, cento e vinte operam por decisão judicial, com processos seletivos suspensos. E a Cruzeiro do Sul, que expandiu um quarto do portfólio em doze meses, vai pagar pela última autorização um valor que ela mesma estima em cerca de 185 milhões de reais, acionado por cláusula do contrato de aquisição da faculdade, com impacto na dívida a partir do próximo trimestre. Uma tem vaga que não pode usar; a outra acabou de comprar vaga por alto valor. As duas estão no mesmo mercado em que uma prova de domingo pode reduzir oferta.
O lado que os balanços não mostram
O Tracking mede tamanho: quantas vagas cada grupo tem, quanto elas rendem, quanto pesam no resultado. Não mede desempenho acadêmico, e é esse o dado que agora define o tamanho. No início do ano publicamos o outro lado dessa conta, no Enamed 2025 e a Educação Médica no Brasil, levantamento do Instituto sobre os resultados do exame. Foram 62 cursos dos grupos de capital aberto analisados um a um, trabalho manual necessário porque as bases oficiais organizam as unidades por natureza administrativa e não permitem identificar quem controla cada faculdade.
O que aquele levantamento mostrou é o contexto que falta na discussão sobre valor de vaga. Menos da metade dos cursos dos grupos ficou em conceito satisfatório, e 36 apareceram em risco de alguma sanção — a maioria reversível, de redução parcial ou congelamento de expansão, mas duas com suspensão de ingresso. Postos ao lado do Tracking, eles contam a mesma história por ângulos opostos: uma pesquisa mostra que a vaga de medicina é o ativo mais rentável do setor, a outra mostra que ele vem sendo operado, em boa parte dos casos, com desempenho que não sustenta a própria expansão.
O que vem até dezembro
Entre a prova de domingo e o resultado, em 4 de dezembro, o setor ainda divulga o terceiro trimestre em novembro, e a 13ª edição do Tracking cobrirá esse ciclo. Quando o resultado sair, o Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo publica a nova edição do consolidado da educação médica, agora com um ano de comparação e com o Tracking já cobrindo a maior operação de medicina do país. Enquanto isso, quem dirige uma instituição com medicina tem uma pergunta para levar ao conselho, e ela não é sobre vestibular: qual é o desempenho dos seus alunos no exame que passou a definir o tamanho da sua oferta, e quem, dentro da sua casa, responde por ele.
A leitura completa de medicina está na 12ª edição do Tracking Educacional Crátilo, com download gratuito.




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