Novo marco do EAD: como o semipresencial mudou as matrículas de 2026 e o que a IES regional deve fazer
- Bruno Barreto

- 9 de jun.
- 6 min de leitura
As matrículas de 2026 confirmaram a virada que o setor antecipava: sob o novo marco do EAD, a modalidade caiu até 73% nos seis grandes grupos da bolsa, e o semipresencial assumiu o centro da captação, chegando a 60% das matrículas. O diagnóstico completo está na coluna Negócios em Educação, no LinkedIn. Este texto é sobre a etapa seguinte: o que a gestão de uma IES regional, familiar, comunitária ou confessional faz, na prática, com essa leitura.
Tracking Educacional Crátilo - 1T2026
Para quem chega direto a este texto, o essencial em poucas linhas. O novo marco do EAD — o Decreto 12.456/2025 — redesenhou as modalidades, restringiu o EAD em licenciaturas, saúde e engenharias e oficializou o semipresencial. O primeiro trimestre de 2026 foi o primeiro processo seletivo conduzido inteiramente sob essa regra, e os números do Tracking Educacional Crátilo, do Instituto de Pesquisas do Grupo Crátilo (IPGC), mostraram um movimento simétrico: o EAD encolheu nos seis grupos da B3, em reduções de 14% a 73%, e o semipresencial cresceu nos seis.
Dois fatos do trimestre orientam tudo o que vem a seguir. Primeiro: grupos que viveram o mesmo cenário tiveram resultados muito diferentes — a Vitru recuou 2,8% na captação sob a régua tradicional, a Cruzeiro do Sul, 23,5%. A diferença não foi de tamanho nem de sorte; foi de preparação. Segundo: apesar da turbulência, a receita cresceu nos seis e cinco dos seis fecharam com endividamento abaixo de duas vezes o EBITDA, a Ser Educacional em 0,75 vez. Num trimestre de virada, o setor listado não correu para gastar — correu para se proteger.
A IES regional não tem o amortecedor do capital aberto, mas protege-se por outra via, de outra natureza: a forma como é gerida. É o que chamo de "a blindagem de gestão", apoiada em três pilares — governança profissionalizada, baixo endividamento e dado na mão para decidir. As três seções a seguir são como construir cada um deles.
1. Como remontar o portfólio para o semipresencial
O semipresencial pede exatamente o que a instituição regional já tem: polo físico, nome reconhecido na cidade, relação com a comunidade. O ativo existe — o que pode estar faltando é posicioná-lo. O trabalho começa por um inventário curso a curso, e não por uma decisão genérica de "migrar para semipresencial".
O primeiro passo é mapear o portfólio atual contra as três modalidades do novo marco, separando o que hoje é ofertado em EAD em duas listas: o que pode permanecer a distância e o que precisa migrar para semipresencial ou presencial por estar em área restringida — licenciaturas, saúde e engenharias. Essa separação não é de marketing; é de ato autorizativo. Cada curso precisa ter projeto pedagógico, comunicação ao aluno e prática operacional coerentes com a modalidade declarada, porque a fiscalização passou a cobrar essa coerência.
O segundo passo é transformar o polo no centro da oferta semipresencial, e não em ponto de apoio administrativo. Sob o novo marco, o polo deixa de ser instrumento de capilaridade comercial e passa a ser espaço de atividade presencial, avaliação e suporte acadêmico — função muito mais próxima de uma unidade da própria IES. Na prática, isso significa decidir quais momentos presenciais cada curso terá, com que infraestrutura, e quem responde academicamente por eles na ponta. A instituição que já tem o polo enraizado na cidade parte de uma posição que a operação puramente digital não consegue replicar em um ciclo.
O terceiro passo é definir a sequência de migração por critério de risco e demanda, não tudo de uma vez. Comece pelos cursos em área restringida com matrícula relevante — onde a inação custa caro — e pelos cursos em que a presença local já é diferencial percebido. Indicadores a observar nessa priorização: volume de matrícula por curso, proporção da base hoje em EAD, capacidade instalada do polo e proximidade do próximo ciclo de captação.
2. Como tratar o endividamento como variável de governança
O que deu aos grupos da bolsa a liberdade de proteger o caixa não foi o tamanho do balanço — foi ter chegado ao aperto com a dívida sob controle. Eles escolheram se proteger porque podiam escolher. Para a IES regional, sem a alternativa de uma oferta no mercado, essa disciplina não é uma escolha financeira; é uma condição de governança que precisa estar na mesa da gestão, não apenas na do setor financeiro.
O método começa por trazer três indicadores para a rotina da direção. Dívida líquida sobre EBITDA é o primeiro: ele responde quantos anos de operação pagariam toda a dívida, e o setor listado mostrou que abaixo de duas vezes há margem de segurança. O segundo é o prazo médio de recebimento — quantos dias a instituição leva para receber uma mensalidade emitida; quanto menor, mais saudável o ciclo de caixa. O terceiro é a conversão de caixa: quanto do resultado operacional vira dinheiro de fato disponível. Não são métricas de relatório de bolsa; são perguntas que qualquer mantenedor pode e deve fazer.
A sequência prática é definir, antes do ciclo de incerteza e não durante ele, qual é o nível de endividamento que a instituição considera seguro e o que será feito se ele for ultrapassado. A alta gestão que discute isso com antecedência decide com método; o que discute no aperto decide no improviso. A pergunta que organiza a conversa é simples: se a captação do próximo ciclo vier abaixo do projetado, por quantos meses a operação se sustenta sem decisão drástica? Quem sabe responder a isso tem margem de manobra. Quem não sabe, descobre tarde.
3. Como institucionalizar a leitura de cenário
A diferença entre quem atravessou o trimestre e quem sofreu o impacto cheio foi a antecedência. O grupo que remontou o portfólio antes da matrícula não adivinhou o que o marco regulatório faria com a sua oferta — leu. E ler cenário, numa instituição, não pode depender da intuição de uma pessoa; precisa virar rotina com responsável e cadência.
O primeiro movimento é atribuir a alguém a responsabilidade pela leitura de mercado — não um departamento inteiro, que a instituição regional muitas vezes não tem, mas uma pessoa ou terceiro encarregado de consolidar o que acontece fora dos muros e levar à mesa de decisão. O segundo é definir a cadência: o regulatório se move em meses, não em anos, e a revisão de cenário precisa acompanhar esse ritmo, conectada ao calendário de captação. O terceiro é transformar leitura em decisão de portfólio — toda rodada de leitura termina com uma pergunta objetiva: isto muda algo na nossa oferta para o próximo ciclo?
É aqui que a inteligência de mercado externa entra na rotina de quem não tem estrutura interna para produzi-la. O Grupo Crátilo mantém três análises setoriais gratuitas, pensadas para compor essa leitura. O Tracking Educacional Crátilo, trimestral, é o termômetro: o que os grandes grupos da bolsa fazem. O Panorama da Captação, semestral, é a voz de quem está na ponta — os gestores de marketing das cinco regiões. E o Panorama da Educação Superior Particular nas Regiões Brasileiras, anual, é o mapa estrutural, com base no Censo do MEC/INEP. O termômetro, a ponte e o mapa: três entradas que, somadas, dão à instituição regional o cenário que nenhum dado isolado entrega — e que custaria caro montar sozinho.
O que observar nos próximos ciclos
Os três movimentos acima — portfólio remontado, endividamento sob controle, leitura de cenário institucionalizada — não são projeto de um trimestre. São a forma de operar que separou, no primeiro trimestre de 2026, quem escolheu o próprio resultado de quem foi escolhido por ele. A blindagem de gestão não depende de capital. Depende de decisão, e decisão se constrói com método e antecedência.
Esta 11ª edição do Tracking traz ainda, no posfácio, a contribuição de Ricardo Luiz Salvador — advogado com mais de 25 anos em direito regulatório educacional, assessor jurídico da Associação Nacional dos Centros Universitários (ANACEU) e sócio fundador da Salvador Associados & Advogados —, que aprofunda dois pontos decisivos para entender a virada: a nova centralidade dos polos sob o marco regulatório e a ADI 7845, em discussão no Supremo Tribunal Federal. Para quem está remontando o portfólio agora, é leitura que ajuda a entender o terreno jurídico sob os pés.
A leitura completa do trimestre — os números dos seis grupos, os cruzamentos e o detalhamento que orienta cada um desses movimentos — está na 11ª edição do Tracking Educacional Crátilo, disponível para baixar gratuitamente em:





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